O NOSSO SOCIALISMO
Este artigo expom muito resumidamente alguns dos temas chave da longa exposiçom (56 páginas) intitulada "Esplendor, crise e reconstruçom da alternativa comunista" que, por convite de uns queridos companheiros, os camaradas de Primeira Linha (MLN), expugem nas IV JORNADAS INDEPENDENTISTAS GALEGAS Comunismo ou Caos.
Os comunistas bascos independentistas de hoje nom esquivamos admitir que para muita gente, centos e centos ou quiçá milhares de milhons de seres humanos, o sucesso da propaganda capitalista na exploraçom do fenómeno da queda e implosom da URSS e dos Estados do Leste europeu os convenceu de que, se umha vez houvo um esplendor da alternativa comunista, já passou.
Mas é também desta postura que os comunistas bascos independentistas de hoje nom hesitamos em afirmar que o esplendor da alternativa comunista é HOJE. Por umha dupla razom, objectiva e subjectiva.
A objectiva baseia-se em que hoje sabemos que Marx tinha razom. Hoje sabemos que os dados precisamente elaborados polos órgaos ao serviço do Capital (FMI, Banco Mundial, ONU e as suas Agências e outros muitos que fariam aquí interminável a sua lista) demonstram que funcionou "a lei geral, absoluta, da acumulaçom capitalista" que Marx formulou no Livro Primeiro d’O Capital.
A lei que:
"produz umha acumulaçom de miséria, proporcionada à acumulaçom do capital. A acumulaçom de riqueza num pólo é ao próprio tempo, pois, acumulaçom de miséria, tormentos de trabalho, escravatura, ignoráncia, embrutecimento e degradaçom moral no pólo oposto" (1)
De forma que hoje é um facto a depauperaçom absoluta do proletariado que essa lei formulada por Marx enunciava. O Modo de Produçom Capitalista é umha fábrica contínua de miséria. Os dados dos expertos capitalistas som precisamente os que evidenciam o fracasso mundial do capitalismo como sistema de satisfazer nem sequer as mínimas necessidades da gente. À vez que a contínua acumulaçom de cada vez mais riquezas em cada vez menos maos.
Som igualmente os órgaos estatísticos ao serviço do capitalismo que acumulárom os dados necessários para construir três curvas de longa duraçom da economia-mundo capitalista: a desruralizaçom do mundo, a destruiçom ecológica do mundo e a democratizaçom do mundo. E para evidenciar que essas três curvas chegárom a um ponto em que ameaçam a acumulaçom incessante de capital, e, com isto, à mesmíssima razom de ser do capitalismo histórico. Ameaçam a sua existência ao destruírem o seu ADN, o seu núcleo genético-estrutural. Por isso é que já há vários anos que Immanuel Wallerstein e os seus colaboradores nos advertírom que findou o ciclo histórico do Modo de Produçom Capitalista. De que o capitalismo histórico, a civilizaçom capitalista, terá concluído no prazo de 25/50 anos e o seu sistema histórico particular já nom existirá e terá sido substituído por algumha destas três fórmulas sociais
Os comunistas bascos tememos que é possível que NOM SE PRODUZA ESSA MUDANÇA DO CAPITALISMO HISTÓRICO PARA OUTRO SISTEMA EM VINTE E CINCO OU CINQÜENTA ANOS. E isso porque o capitalismo pode ter destruído o planeta ANTES de eles transcorrerem. Ou, o que para a Humanidade seria o mesmo, tê-lo feito inabitável para o género humano.
Esses som os factos (que nom opinions) que demonstram objectivamente que o esplendor da alternativa comunista é HOJE. Porque som factos que demonstram que o dilema é hoje comunismo ou caos.
A outra razom, a subjectiva, vem medida também por factos. Os factos que evidenciam a crescente emerência actual de sujeitos colectivos revolucionários com sucesso em multitude de países. Os milhons de camponeses do MST brasileiro e os guerrilheiros colombianos som dous exemplos claros na Latioamérica. Mas também há exemplos de umha nova vaga de luitas de classes nos mesmíssimos países do Centro capitalista.
Dentro dessas razons subjectivas existentes para afirmar que o esplendor do comunismo é HOJE também nom hesitamos ao afirmarmos, com a humildade que consiste em dizer a verdade, que cumpre contar com a força e a tenacidade com que o Povo Trabalhador Basco peleja pola sua independência e polo socialismo. O socialismo entendido, com certeza, apenas como a fase consciente e transitória que prepara o desenvolvimento do comunismo.
Eis, por isso, umha mao-cheia de princípios teórico-estratégicos que tentamos popularizar e inserir nas dinámicas politicas concretas do processo político basco e que julgamos podem ser também últeis aos nossos camaradas de outros povos:
1) O nosso socialismo, antes de mais, hé de quebrar com a dominaçom patriarcal, com o império do macho, do marido e do monarca. Esta ruptura, que deve prolongar-se e aprofundar-se durante várias geraçons, é umha prioridade estratégica, de longo alcance, tam importante como o controlo operário, a superaçom processual da propriedade privada burguesa, a socializaçom das forças produtivas, a nacionalizaçom e controlo popular da banca e os resortes financeiros, a destruiçom do exército burguês e a criaçom de um sistema de defesa baseado no povo em armas, voluntário e integrador de todos os métodos de resistência...
O nosso socialismo há de se basear na construçom consciente de umha outra forma de espécie humana, de um outro corpo, de umha outra sensibilidade, amor e prazer. Nom deve ser apenas um socialismo que luite contra a exploraçom assalariada, mas também que defenda um outro conceito de trabalho e, portanto, de relacionamentos humanos, de afectividades e interioridades. Um socialismo que mantenha a visom do trabaho como algo forçoso, duro, alienante e nom enriquecedor seria um socialismo incapaz de contruir dimensons omnilaterais e policromas de criatividade humana. E por isso a superaçom do patriarcalismo torna imprecindível.
2) O nosso socialismo também nom pode ficar cingido ao poder de umha burocracia parasitária, encistada e protegida em e polos aparelhos de Estado, partido único, sindicato obrigatório, associaçons forçosas de vizinhos, juventude e mulheres, entidades controladoras de artistas, cientistas e desportistas, imprensa submissa e monocor. De umha burocracia que, acoiraçada atrás desses poderes injustos, dite e ordene todos os aspectos da vida, colectiva e individual. Do mesmo modo que reivindicamos umha nova vivencialidade psicofísica, intersexual e superadora dos roles e géneros, também, à força por quanto vam unidos, reivindicamos formas assembleares, conselhistas, horizontalistas de intervençom popular e operária.
O modelo de partido único é daninho. Nengumha sociedade pode pretender abrir-se a umha explosom de criatividade, que é umha das características do socialismo, se estiver espartilhada polas estreitas mentes dos burocratas balorentos. Nengum processo emancipador, que por força há de defrontar toda série de boicotes, cercos, sabotages e agressons que nom tenhem por que ser pública e imediatamente militares e guerreiras, senom que podem principiar sendo económicas, políticas, culturais, sanitárias e alimantares e tecnológicas, pode resistir longo tempo se nom estiver dirigido conscientemente polo povo. Este ponto é tam básico como o anterior, porque atinge algo que se esquece quase sempre quando se fala de socialismo: muito mais importante do que a estrutura política, sendo esta muito, som a vontade, a consciência, a decisom, o chamado factor subjectivo das massas que se dirigem a si próprias porque dentro delas estám as estruturas auto-organizadas.
3) Nom menos importante no nosso socialismo há de ser a generalizaçom de umha forma qualitativamente superior de relacionamento com a Natureza, com o ecossistema e hábitat nosso e mundial. O desenvolvismo capitalista, o consumismo cego e irracional e a destruiçom de energias e matérias finitas e irrecuperáveis, som hipotecas, cadeias que nos atarám mais cedo do que tarde a novas formas de exploraçom e por ende suprimirám a nossa independência nacional. A ecologia nom é umha moda, é umha exigência ético-política. Nom é um truque capitalista para vender mais poluindo no Terceiro Mundo ou regions longínquas, é umha sábia poupança de bens cada vez mais escassos e quebrantados. A ecologia nom é um somnífero para yuppies atormentados pola sua má consciência, mas umha prática colectiva de reunificaçom da espécie humana com a natureza.
Mas a generalizaçom social de modos de vida, de poupança e reciclage, de consumo racional e integrado, de despoluiçom e de projectos a médio e longo prazo, semelhante tarefa essencial a nosso socialismo, nom pode existir se nom existir um debate colectivo sobre o critério de necessidade, de qualidade de vida, de senso da existência, de interiorizaçom das conseqüências acumulativas e sinérgicas num futuro dos nossos mais nímios e em aparência superficiais vícios consumistas. Isso todo remete-nos umha outra vez para os dous pontos precedentes. E é que o socialismo é a consciência levada à acçom, ou nom é nada, excepto dogmas e palavras ocas.
4) Por último, o nosso socialismo nom pode dar-se dentro dos estreitos e castradores tópicos eurocêntricos. Ou somos internacionalistas à vez que independentistas, ou nada. Assi de simples. Nom existe qualquer hipótese de criarmos umha ilha de justiça e igualdade no meio de um oceano de opressom e injustiça. Duraríamos muito pouco se nom estivéssemos dentro de um processo mais generalizado de emancipaçom. Mas isso exige-nos ultrapassar os nossos racismos eurocêntricos, as nossas xenofobias ocidentalistas. Temos de aprender de outros povos e civilizaçons, de culturas mais "pobres" –em quê?— e com outros códigos e parámetros. Também havemos de aprender a relacionar-nos com as classes oprimidas dentro da mesma Europa, com essas massas cada vez mais empobrecidas e maltratadas. Em resumo, trata-se de percebermos que o nosso socialismo nom pode repetir o erro estratégico do chamado "socialismo num só país", o que nos leva a desenvolver estratégias e tácticas de desligaçom paulatina, processual mas corajosa dos centros imperialistas. É possível e é necessário.
O internacionalismo nom é apenas umha manobra de sobrevivência e um recurso egoísta de pedir ajuda. É antes de mais umha nova conceiçom da unicidade do mundo, da pertença de todos os povos à mesma espécie humana, da existência de umha mesma problemática e de um mesmo inimigo. É portanto umha conceiçom nova, filosófica e histórica, humanista e ético-moral. Conceiçom essencialmente unida à ecologista porquanto ambas partem dos mesmos problemas, olhados de umha outra perspectiva e campo de acçom, para coincidirem nos mesmos resultados práticos. Conceiçom essencialmente democrática porquanto se opom e luita contra todo poder, esteja onde estiver e se difarce da cultura que for. Por último, dado que reformula de umha outra visom a cissom da espécie em si e consigo mesma, advogando por umha radical unicidade, por isso mesmo é incompatível de facto com o patriarcalismo.
Nom deveria surpreender a ninguém a clara interligaçom teórica e prática dos quatro pontos descritos. Nom podia ser de outro jeito. O socialimo é umha totalidade multicolor que ascende polo arco-íris da consciência emancipada. As suas tonalidades e matizes som infinitos, a sua beleza é única. (2)
É assi como os comunistas bascos estamos pensando o socialismo que temos que construir. O socialismo que seja, repito, a fase consciente e transitória que prepara o desenvolvimento do comunismo.
Porque os factos nos demonstram que o comunismo é já a única alternativa –o único caminho, a única via, a única saída— que cabe para ultrapassarmos a miserável situaçom do planeta. Comunismo ou caos.
Notas:
(1) Karl Marx: Das Kapital/ Kritik der politischen ökonomie. Buch I.1867. Cito da página 805 da ediçom em castelhano El Capital. Crítica de la economía política. Libro Primero. Volumen 3, Siglo XXI de España Editores S.A., Madrid, 1980 (2ª da Espanha).
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(2) A descriçom dos princípios teórico-estratégicos sobre o socialismo que os comunistas bascos propugnamos reproduz quase que textualmente parte de um trabalho de Iñaki Gil de San Vicente intitulado Independencia y socialismo, publicado na web da REDE BASCA VERMELHA.
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